quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Os engenheiros e a fé

Em debate na SIC notícias Francisco Van Zeller afirma, com grande convicção, que o estudo que deu origem a novo estudo do LNEC e há hipótese Alcochete foi feito apenas por engenheiros. Como economista não preciso de ouvir mais nada. Já começo a conhecer bem o rigor e acuidade dos engenheiros - especialmente nos negócios. E assim que se metem engenheiros num assunto entra logo a análise "técnica", e isso tem uma magnificência semelhante às tábuas da lei. Como economista parece-me que a minha área é que devia ter a palavra final sobre as análises técnicas dos engenheiros.

Felizmente está na mesma sala Henrique Neto, a mostrar como se pensa em economia. E como é infeliz esta decisão de Alcochete.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Fim de 2007

Com o fim do ano dediquei-me a ver melhor o que ando a escrever no blog e não fico muito satisfeito. Para além de algum excesso de corrosibilidade, vejo que só ocasionalmente o que escrevo é claro e vai de encontro ao que pretendia e que muitas vezes deixo passar erros (ao teclar ou ortográficos) devido à pressa ou ao cansaço com que geralmente escrevo.

Pelo menos cumpri o objectivo de ter um fluxo mais ou menos constante e desenvolvi o hábito de escrever no blog. Em 2008, com mais calma, espero manter o nível de actividade mas com textos mais pensados e menos apressados.

Uma boa passagem de ano para todos, espero que continuem a ter paciência para me aturar (assumindo que alguém lê mesmo!).

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

O acordo ortográfico

Mais um artigo de Vasco Graça Moura sobre o acordo ortográfico, exemplificando bem que nada de bom resulta do mesmo. Neste artigo fica mais claro que só pessoas que não percebem de política, língua e globalização podem achar positivo este acordo. Só espero que não seja a maioria.


Artigo

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Inverno

Começa hoje a gestação da primavera.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Revolução industrial nos jogos de vídeo



Middleware, aplicações a que os estúdios de jogos, principalmente os europeus e americanos, recorrem para acelerar o processo de desenvolvimento de um jogo. A aplicação mais recente de que tive conhecimento gera automaticamente cidades com base nalguns dados iniciais que o utilizador da ferramenta insere. Cria-se deste modo o universo onde decorrerá o jogo - de uma forma mecânica e muito menos pensada. Evita-se deste modo que sejam pessoas a criar toda a cidade, a pensar em cada pormenor e elemento, gera-se automaticamente aquilo que é um dos pontos fundamentais dos jogos. O resultado provável será um mundo genérico, sem carisma nem personalidade, uma consequência muito frequente do recurso a este tipo de ferramentas.

Cria-se assim de forma mecânica o que antes requeria artífices capazes, produz-se em massa aquilo que devia ser individualizado e pensado ao pormenor e desvirtua-se o trabalho dos artistas que desenhavam os cenários. Em suma, tudo se banaliza graças a ferramentas que nos fazem trabalhar mais depressa e mais barato. Foi assim com a produção em massa e segue-se o mesmo caminho com o desenvolvimento dos jogos, presumo que com enorme prejuízo para os mesmos.

Como sempre a lógica científica nega-nos o prazer do fútil e do ineficiente, as brechas que são tão necessárias para o preenchimento com criatividade. E fazem-se, mais rapidamente e com menos custos, coisas que são melhores e que nos agradam menos.

domingo, 25 de novembro de 2007

Ideologia implícita

Retiro este pequeno excerto de uma entrevista a Mário Soares. É com muito gosto que vejo mais alguém reconhecer que as ideologias não terminaram e que o neoliberamismo é uma ideologia. A situação que talvez seja atípica é a de essa idelogia não ter quase mais nenhuma capaz de competir com ela. Além disso tem a força de descer ao desejo de posse dos homens, a esse vício que nos consome mesmo sem nos dar prazer.

Reconhecer que existe uma ideologia é o primeiro e mais importante passo para criar ideologias alternativas. E Mário Soares, nesta entrevista, dá o seu contributo.


DN - Agravaram-se porquê?

MS - Agravaram-se porque houve uma vaga neoliberal.

DN - Acha que os políticos em Portugal têm sido muito condescendentes com os grandes grupos económicos e com essas desigualdades?

MS - Bem, os grupos económicos são necessários. Mas eu acho que houve uma vaga neoliberal vinda da América. E essa vaga neoliberal é uma ideologia. Quando disseram que acabaram as ideologias... realmente acabou o comunismo por implosão, acabou o nazi-fascismo porque foi derrotado, mas veio o neoliberalismo, que é uma outra ideologia perniciosa para a América, em especial, e para o mundo, também para a Europa. Houve uma vaga que entrou...

DN - Por onde?

MS - Em grande parte via [Tony] Blair.

entrevista

A Confissão de Lúcio


"A Confissão de Lúcio", obra de Mário de Sá Carneiro, é pouco clara no seu objecto - assumindo que há um objecto. Podemos encontrar o desequilíbrio e descontrolo - principalmente de Lúcio. Ou a dificuldade de comunicação e a impossibilidade de transmissão directa da experiência cognitiva. Encontramos ainda alguma caricatura da arte e do meio artístico, não sei se intencional, mas presente na ambiência parisiense. Encontramos tudo isto mantendo-nos sempre perdidos e desorientados.

Esta obra não-linear acaba por não oferecer uma leitura agradável, oferece a mesma sensação de ter uma longa conversa com um louco. No entanto o tema e a abordagem não são perdas de tempo, ao ler o livro várias vezes me ocorreram imagens do filme Mulholland Drive, a linguagem do cinema parece muito mais apta para expressar aquilo que até podia fascinar Mário de Sá Carneiro mas que não chega ao leitor por via da escrita.

Excertos no Instituto Camões

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Idade Avançada

O estúdio Mistwalker tem um curso um jogo de nome Lost Odyssey. Um dos personagens principais, Kaim, tem uma aparência jovem com uma idade de 1000 anos. Há mais alguns personagens na mesma condição, pessoas imortais que circulam pelo mundo. Mas as características que Sakagushi associa a esta idade são as de indiferença, talvez até apatia. Subjacente está a ideia de mundo monótono e de tédio para quem tem de aturar os "jovens" que repetem constantemente os mesmo actos.

É uma boa forma de colocar a imortalidade. Será interessante saber como se relacionam os imortais entre si, se também são camaradas, indiferentes ou se practicam as mesmas acções que caracterizam o mundo que entedia.

sábado, 3 de novembro de 2007

A arte de jogar

Vídeo

Encontrei na Edge deste mês uma citação deste vídeo e pareceu-me bastante bizarra. Consegui encontrar o vídeo e os comentários são preocupantes. Primeiro temos aquela comparação entre formas culturais, jogos comparados a livros e a cinema. Apesar de os jogos terem histórias e imagem, na verdade não são esses os elementos vitais. A arte de fazer um jogo passa, em primeiro lugar, pela forma como estão definidos os controlos - e nesse campo os críticos tradicionais não são muito competentes na apreciação dos jogos uma vez que não têm noção de que fazem parte do jogo e que o jogo não é autónomo do jogador.

A isto segue-se outro assunto preocupante, o exemplo do livro deprimente. Eu não leio livros deprimentes, se isso é arte então não tenho nenhum gosto por essa coisa. Parece que a arte foi tomada de assalto por loucos e o melhor é manter a distância. Será melhor que os jogos se afastem dessa contaminação da arte moderna (que por acaso consegue ser bastante deprimente).

Sobre o jogo ser melhor na primeira vez que o jogamos, não estou muito certo disso. Em muitos jogos actuais, jogos muito limitados pela colagem a formatos como o cinema, isso pode ser verdade. Não é verdade no entanto para jogos mais puros, mais virados para o jogo propriamente dito e menos para outros aspectos paralelos.

Por fim vemos o senhor a comentar como o jogo é realista e dá a entender que essa será uma virtude. Não vejo porquê nem como, mas é uma coisa muito americana - deve ser por isso que os jogos desse lado do Atlântico são por regra mais feios que os do resto do mundo.

Ao ler a Origem da Tragédia consegui compreender melhor a crítica actual e as deficiências de que muita da arte existente sofre. Nos jogos o livro é particularmente pertinente, creio que tendo presentes as ideias do livro seremos muito mais cautelosos ao fazer afirmações como fez o senhor Dirda.

sábado, 27 de outubro de 2007

Aquilo que não sei

Ao ver este vídeo constato que desconheço muito do pós 25 de Abril. Os nomes são-me estranhos ou apenas vagamente familiares, as situações são-me desconhecidas. A postura deste PM é invulgar e com muita pena vejo que durante os 12 anos de frequência do ensino básico e secundário não houve tempo para expor convenientemente este período fundamental. Mas falei do "star system" de "hollywood" na disciplina de história. Prioridades...

No vídeo o entrevistado é José Pinheiro de Azevedo. Chamam-no fascista nos comentários do youtube, confesso que nada sei sobre ele.

domingo, 21 de outubro de 2007

A. Cunhal vs. M. Soares

Então podem fazer-se debates sem jornalistas a segurar trelas que prendem os políticos? Não é que nessas condições eles debatem mesmo! Extraordinário!

Parece que hoje em dia para ver debates temos de recorrer ao arquivo da rtp.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007


Uma nova entrada no Mapa do Verão de São Martinho, a Carreira da Índia.

Para quem gosta de literatura de viagem e descobrimentos. Os portugueses em geral.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Outono

Já é Outono e, num grave lapso, não o mencionei aqui no blog. Deixo algumas folhas de plátano, as folhas que estou habituado a ver e cheirar nesta altura desde que me lembro de existir.

sábado, 22 de setembro de 2007

Notas do Tradutor

Camilo Castelo Branco fez uma tradução de "A Formosa Lusitânia" de Lady Jackson. Deste livro ficam na memória os comentários do tradutor: vigorosos e adequados nas suas considerações. Demonstra um grande conhecimento de todos os assuntos e castiga a mediocridade do rigor inglês nas considerações sobre o país.

Dou alguns exemplos dessas notas, não os melhores, apenas aqueles que me parecem mais próprios para as minhas experiências deste dia.

114 Parece-me ser este o plebeísmo português correspondente ao knocked up. Segundo o Thesaurus of english words and phrases, de Roget, knocked up tem a seguinte sinonímia fatigued, tired, sinking, prostrate, etc. Talvez mais ao sabor plebeu, se pudesse dizer «derreadas»; porém, é quase inverosímil uma inglesa derreada - elas, que se interiçam na hirta inflexibilidade do osso sem articulação, sem costura, inconsútil. «Estafadas» pois é o melhor, acho eu.

156 Esta senhora houve-se generosamente com a princesa do Mondego. Não é esse o costume dos hóspedes ingleses, Richard Twiss, que esteve em Coimbra em 1773, homem de letras, escreveu um enorme livro acerca de Portugal e Espanha, dedicando a Coimbra as cinco seguintes linhas: «Coimbra é uma universidade situada num monte, perto do rio Mondego, sobre o qual corre uma ponte muito comprida e baixa, com muitos arcos grandes e pequenos. residem aqui cinco famílias inglesas, uma das quais pertence a um médico. Esta cidade é celebrada pelos seus curiosos copos e caixas de corno polido.»
E nada mais diz o admirador do polido corno.



domingo, 16 de setembro de 2007

Na lista de "outros espaços" acrescentei a A Geração Perdida, um blog com gente que confirma se as palavras têm as letras todas e que é um pouco menos rabujenta do que eu.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

No Abrupto podemos encontrar um texto de Boaventura Sousa Santos sobre a invasão e destruição parcial do campo de milho (?) transgénico. Um texto impecável, irrepreensível e completamente incompreensível para um mundo de gente que não gosta de pensar. Não se trata de uma legitimação de um movimento, apenas de como se desenrolam certos tipos de acção.

O 25 de Abril de 1974 foi ilegal, o 24 de Agosto de 1820 foi ilegal, o 1 de Dezembro de 1640 foi ilegal. Nem quero imaginar o que diriam estes comentadores do vital 1 de Fevereiro de 1908! É claro que estes acontecimentos não são de forma alguma comparáveis com um simples ataque a um campo de milho. No entanto não se trataram de acontecimentos instantâneos, desenvolveram-se a longo do tempo, foram ganhando dimensão lentamente. Nessas fases de crescimento sofrem-se os riscos e praticam-se as "ilegalidades" - nos encontros, nos pequenos actos de revolta, na conspiração.

Nos dias que correm já poucos crêem que no futuro existirão revoluções. É a arrogância das democracias - apesar das inúmeras falhas ideológicas e de governadas por uma maioria tonta não deixam de se achar inabaláveis. Falte o dinheiro e veremos onde pára a robustez dos nossos valores "universais".

domingo, 9 de setembro de 2007

C.C.B.

Ao homem desamparado não se lhe podem pedir contas do pacto social, porque a sociedade não quis aliança com ele quando o desamparou. Ao homem do trabalho, que subsiste do seu salário, se lhe tiram a enxada da mão, concedem-lhe o direito tácito de se revoltar contra alguém que o alimente. (...)

Este nosso Portugal é um país em que nem pode ser-se salteador de fama, de estrondo, de feroz sublimidade! Tudo aqui é pequeno: nem os ladrões chegam à craveira dos ladrões dos outros países.

Citações de Camilo Castelo Branco em Vida do José do Telhado.

Nestas passagens encontro dois elementos de relevo. Um é a da justificação da pobreza extrema para o saque. É de realçar no entanto que tal argumento só se aproveita quando a palavra pobreza vem acompanhada da palavra extrema, coisa cada vez mais rara no nosso país e continente.

Na segunda passagem algo mais frequente, a tentativa de enfiar na máquina e a 90º o nosso povo de algodão. O comentário, directamente do século XIX, mostra que não só temos o hábito de encolher em pouca água a ferver, como que o tamanho já era o "XS". Serve de exemplo para aqueles que acreditam que umas poucas décadas do século XX moldaram as mentes dos portugueses. Não, esse espírito já vem de outros tempos.

sábado, 8 de setembro de 2007

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Num artigo do DN intitulado "o que falta para sair da crise" César das Neves aponta um dos graves problemas da política e da mentalidade tecnocrática. Pode-se resumir a texto na ideia de que se não avançamos é porque não sabemos para onde ir, nem sabemos bem onde estamos. Em termos de economia vai ao fundamental: é uma questão com uma forte ligação à componente cultural.

Actualmente é-me mais fácil compreender pessoas assim, com ideais ou fé, do que os comentários mais gerais e comuns. É quase como se todos os que acreditam em algo tivessem facilidade em ver o inimigo comum, o nada - esse adversário complicado.




Um pouco antes passei por este artigo, que passo a citar (sem pretender nenhuma carga negativa para o primeiro artigo):

"O dinheiro tornou-se mais e mais um Deus ao qual todos tinham que servir e diante do qual todos tinham que se prosternar. O Deus Celestial tornou-se mais e mais uma velharia ultrapassada e foi posto de lado para dar espaço ao culto de mammon. E assim começou um período de total degeneração que se fez especialmente pernicioso porque ocorria num tempo em que a Nação necessitava de ideais grandiosos, pois a hora crítica aproximava-se. A Alemanha deveria ter-se preparado para proteger com a espada seus esforços de ganhar o pão de cada dia pacificamente. Infelizmente, a predominância do dinheiro recebeu apoio e sanção daqueles que deveriam ter-se oposto a ela. (...). Na prática, contudo, todas as virtudes ideais passaram para o segundo plano em relação ao dinheiro, pois estava claro que, uma vez tomado esse caminho, a nobreza da espada brevemente seria suplantada pela finança (...). Um sério estado de ruptura económica era urdido pela lenta eliminação do controle pessoal dos investimentos e a gradual transferência de toda a estrutura económica para as mãos das sociedades por acções (...). Desse modo, o trabalho foi rebaixado a objecto de especulação ao alvedrio de exploradores sem escrúpulos. A despersonalização da propriedade aumentou em grande escala. Os círculos financeiros passaram a triunfar e progredir lenta mas seguramente na assunção do controle de toda a vida nacional. A melhor prova de quão longe essa "comercialização" da nação alemã fora longe pode ser vista claramente após a guerra, quando um dos principais industriais alemães afirmou que somente o comércio poderia reerguer a Alemanha."


Adolf Hitler, Mein Kampf


O sucesso da recuperação alemã, em termos económicos e políticos, revela a importância que um ideal combinado com uma cultura capaz de "fazer" traz tudo o que é necessário para o desenvolvimento sem estar constantemente a falar, de forma vazia, em competitividade. Claro que nem todos os ideais são bons, apenas a utilidade dos mesmos é garantida.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007


Sentado aqui eis que modelo homens
À minha imagem,
Um género que me seja comparável,
Para sofrer e chorar,
Para gozar e jubilar,
Para te não venerar,
Como eu!

Prometeu (Goethe), em A Origem da Tragédia (Nietzsche)