Parte 11
A maneira de preparar a infusão do chá em pó e a arte de servi-lo constituem a tão famosa cerimónia do chá-no-yu. Foi assim que o uso do chá se introduziu no Japão, como uma prática litúrgica dos frades budistas da seita de Daisu, exercida no propósito de prolongarem as místicas vigílias preceituadas; servia ao mesmo tempo de pretexto para reuniões íntimas, que eram, imagine-se, um aprasível desenfado à proverbial monotonia do convento; sendo um meio eficaz de estreitar laços de estima, pelas confidências segredadas, pelos sorrisos beatíficos que se cruzavam, enquanto a única taça ia passando, de mão em mão, de boca em boca, fraternalmente, até se esvaziar.
Mais tarde adoptou-se entre o povo o uso das folhas; mas o chá-no-yu persistiu nas bonzarias, propagando-se também nos costumes profanos, então com um exuberante luxo e aparato, que muito apaixonou a alta nobreza. Pelos dias que correm, ainda está em moda, sem distinção de classes; é um hábito gentil que ficou dos velhos tempos e a que todos podem entregar-se, tido em valia pela delicadeza estética do cenário e ainda não despido do prestígio ortodoxo que vem da remota tradição.
O chá-no-yu, se pode definir-se, é a arte de preparar a infusão em pó, com esses escrúpulos de limpeza, com esses requintes de elegância de que só é capaz o japonês; sendo a bebida oferecida a alguns amigos de eleição, adrede reunidos num recinto disposto para a paz do pensamento e para o agrado dos sentidos.
Bom é dizer agora que os códigos referentes a matéria tão grave são inúmeros, diversas as escolas; e os grandes profissionais, chajin (homens do chá), de celebridade imorredoira, centenas de volumes escreveram sobre o assunto.
Tudo foi regulamentado e comporta um preceito, que não é lícito esquecer. Nos tempos áureos do chá-no-yu, o pavilhão que recebia os hóspedes era construído num jardim e obedecia a uma arquitectura inconfundível. No seu arranjo interno, para a cor das paredes, para a disposição de luz, para o número das esteiras, para a jarra com flores ou com um ramo de árvore, havia praxes a seguir; o kakemono (quadro suspenso da parede) de via representar uma paisagem que fosse impressionar a pupila com carinho; ou antes uma simples sentença escrita por um pincel de mestre caligráfico, pois nada comove tanto a aguda sensibilidade desta gente como os seus caracteres de estranha construção, cada um equivalendo já a uma síntese de ideias e predispondo, pela sentida contemplação - ora uma desenvoltura de traço, ora por uma ondulação de curva-, ao vago discorrer da alma sonhadora.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Wesceslau de Moraes - O Culto do Chá
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20.11.08
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quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Wesceslau de Moraes - O Culto do Chá
Parte 10
O chá japonês, servido invariavelmente leite e sem açúcar, que lhe prejudicariam o aroma, é a bebida mais suavemente agradável que possa oferecer-se ao nosso paladar (não de todos, porém, mas um paladar sentimental, um tanto sonhador... que nisto dos nossos orgãos de sentir há temperamentos, aptidões afectivas características....). O guyokuró, por exemplo, que é o mais celebrado chá de Uji e de todo o Japão, instila tais subtilezas balsâmicas de sabor, que mais parece um perfume; poderia dizer-se que uma maravilhosa alquimia conseguiu liquefazer os aromas das flores - flores do jardim, flores silvestres -, transferindo do olfacto ao paladar a impressão do gozo. Assim é o guyokuró; claro está que as palavras não podem traduzir senão por comparação as emoções sentidas; e esta, a do agridoce deliciosíssimo que nos fica nos lábios, persistindo, como na memória persiste uma reminiscência, uma saudade, é incomparável...
O chá japonês tem a virtude de mitigar a sede. Assim se explica o hábito de os japoneses não beberem água; mesmo na força dos calores, em pleno Agosto, a chávena de chá, saboreada a goles, lhes dá pleno consolo. Aponta-se-lhe mais outros condões: excita ligeiramente o organismo, conbate o cansaço das vigílias, predispõe ao bem-estar, infiltra no cérebro não sei que subtil embriaguez, lúcida todavia, que nos torna mais afectivos às sensações de agrado e mais aptos às elaborações do pensamento.
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19.11.08
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quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Wenceslau de Moraes - O Culto do Chá
Parte 9
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13.8.08
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segunda-feira, 21 de julho de 2008
Wesceslau de Moraes - O Culto do Chá
Parte 8
À introdução e vulgarização do chá na terra japonesa deveu grande incremento uma indústria desde remotos tempos exercida mas toscamente praticada - a cerâmica -, que havia de alcançar com o correr dos tempos um supremo grau de perfeição como arte nacional. A conservação da preciosa folha, exigindo escrúpulos inauditos para reter o seu perfume, marcou o ponto de partida. Foi Toshiro, um oleiro da aldeia de Seto, na província de Owari, quem fabricou os primeiros boiões para guardar o chá, empregando processos que aprendera na China, respeitantes à perfeição da pasta e dos esmaltes. Passava-se isto há sete séculos; e é curioso registar que seto-mono (objecto do Seto) é ainda hoje o nome consagrado para qualquer objecto de cerâmica.
Dos boiões, passou-se gradualmente às chávenas, aos bules, à gentil e complicada baixela que a infusão foi reclamando e o luxo pondo em moda; e ora aqui está como cerâmica no Japão - faiança ou porcelana -, que atingiu requintes de arte primosíssima, deveu ao chá e à água morna melhores progressos.
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21.7.08
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segunda-feira, 23 de junho de 2008
Wesceslau de Moraes - O Culto do Chá
Parte 7
Tal é a indústria graciosa e tal é o chá que os japoneses bebem. Vede agora como a civilização ocidental contrasta com os usos destes asiáticos. Têm os japoneses, para lá do Pacífico, um grande consumidor do seu produto: é o Yankee. Tanto mimo e tanto esmero na apanha da folha e preparações que se sucedem não bastariam para o chá que os americanos vão beber. Vem de Uji e de outros pontos, tal como os japoneses o preparam, para as firmas estrangeiras de Cobe e de Yokohama; é então submetido a novas operações, ao sabor fino do paladar de Nova Iorque e de Chicago. Não são agora as camponesas, esbeltas e trajando roupas novas, que acodem ao mister; trabalham máquinas a vapor, fumegam chaminés e guincham engrenagens; e ocupa-se no preparo um mundo feminino inqualificável, escória das cidades, esfarrapado, piolhoso, horripilante, que a gente vê sair das fábricas à tarde como uma leva de mendigas, cheias de pó, de pústulas, de miséria. O fabrico do chá ao gosto americano consiste num segundo aquecimento em grandes fornos e na adição de varios produtos, como pó de uma certa pedra, soops-stone, e o azul-da-prússia. Assim é expedido.
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23.6.08
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domingo, 8 de junho de 2008
Wesceslau de Moraes - O Culto do Chá
Parte 6
Quem quiser tomar conhecimento com a planta de chá, nas melhores condições de prosperidade e em mais belas galas de aspecto pitoresco, tem de ir até Uji, distante 15 milhas de Quioto; escolhendo de preferência um dos primeiros dias de Maio, quando os rebentos novos começam vicejando, o que marca o ínicio da faina da colheita. Faina e festa; a povoação inteira acorda da sua modorra provinciana; desperta em esperanças, em júbilos, em actividades incansáveis, para votar-se aos cuidados da preciosa folha; deverá presumir-se em bom critério, que a quadra remoçante da Primavera em flores, com aromas nas brisas e quenturas criadoras, contitui também um forte estímulo para a alegria repentina que se pinta nos rostos de toda aquela gente.
O quadro é deveras aprazível. Após uma banal estação de linha férrea, estende-se a cidadezinha garrida, com as suas vielas muito limpas e a fila de lojinhas abarrotadas de vária mercancia. Depois segue-se o rio, de águas límpidas e frescas, rico de tradições de glória; galga-se a ponte em arco, entra-se no bairro das chayas, dos hóteis, em tal quadra povoada de fregueses galhofeiros e de gentis mulheres, as gueishas, que cantam ou dedilham no inseparável shamicen, e vêm depois dos campos, vastos campos de chá a sucederem-se pelo horizonte, cuidados como jardins, em longos alinhamentos de arbustos, copados, arredondados, lembrando enormes manjericos, de delicada rama de um verde-escuro bronzeado; no azul distante, alguns famosos templos confusamente se recortam.
As moças de Uji estreiam kimonos novos para o caso, arregaçando as mangas com fitas escarlates; amarram em turbante em volta dos cabelos toalhas de cor azul-e-branca; e assim, esbeltas, graciosíssimas, em ranchos de dez, de doze companheiras, dirigem-se ao trabalho. É então um encanto para os olhos ir a gente surpreendê-las no afã do seu mister, dispensas peças campinas fora, como borboletas; indo de um ramo a outro ramo, de um arbusto a outro arbusto, por vezes ocultando-se entre o verde mais denso da folhagem. Os dedos róseos, miudinhos, a escorrerem de orvalho e mutiplicando-se em gestos delicados, vão colhendo os rebentos tenros do chá e atirando-os a grandes ceiras dispostas pelo chão; as bocas vão sorrindo, patenteado as enfiadas alvas dos dentinhos; os olhos esbraseiam em juvenis amores inconfessados; as vozes unem-se às vozes, em ritmos comoventes de velhas canções locais:
Por cima daquele outeiro,
Todas as águas do rio
Parecem memo um braseiro!...
«Nestas águas do rio d'Uji
- Tão milagrosas que são! -
Lavam-se todos os males
de que sofre o coração...»
No campo as raparigas. Nas casas os homens, as velhas, as crianças. Será rara a família que não tenha interesses na labuta; as grandes fábricas constituem excepção, como em todas as primitivas indústrias japonesas; em cada albergue se improvisa uma manufactura, modesta, familiar, onde todos trabalham, risonhos, palestrando. O chá é escolhido, escaldado, posto a secar, grelhado em fornos, enroladas as folhas ou reduzido a pó, depois empacotado, guardado em latas, em caixas, em boiões; um melindroso amanho que requer mãos incansáveis, dedos prestimosos, cuidados inauditos, segredos de processo, meticulosidades devotas que espantam os profanos, nos quais colabora a gente toda válida daqueles arredores.
Tal é a indústria graciosa e tal é o chá que os japoneses bebem. Vede agora como a civilização ocidental contrasta com s usos destes asiáticos. Têm os japoneses, para lá do Pacífico, um grande consumidor do seu produto: é o Yankee. Tanto mimo e tanto esmero na apanha da folha e preparações que se sucedem não bastariam para o chá que os americanos vão beber. Vem de Uji e doutros pontos, tal como os japoneses o preparam, para as firmas estrangeiras de Cobe e de Yokohama; é então submetido a novas operações, ao sabor do fino paladar de Nova Iorque e Chicago. Não são agora as camponesas, esbeltas e trajando roupas novas, que acodem ao mister; trabalham máquinas a vapor, fumegam chaminés e guincham engrenagens; e ocupa-se no preparo um mundo feminino inqualificável, escória das cidades, esfarrapado, piolhoso, horripilante, que a gente vê sair das fábricas à tarde como uma leva de mendigas, cheias de pó, de pústulas, de miséria. O fabrico do chá ao gosto americano consiste num segundo aquecimento em grandes fornos e na adição de vários produtos, como o pó de uma certa pedra, soopstone, e o azul-da-prússia. Assim é expedido.
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terça-feira, 3 de junho de 2008
Wesceslau de Moraes - O Culto do Chá
Parte 5
Passando, em horas de ócio, junto dos campos de chá, dos quais sinto prazer em acercar-me, palestro com os aldeões e aprendo noções várias respeitantes à delicada planta. Não pode ser transplantada, nem se multiplica por estaca ou por excerto, só por sementeira se propaga. Os países quentes, como os países frios, são-lhe nocivos; prospera nos climas temperados, nos sítios lavados de ar e luz, vizinhos dos cursos de água, convindo um ligeiro declive ao solo de cultura. Os arbustos são dispostos em renques paralelos, de norte a sul, para que o sol lhes bata em cheio desde pela manhã até à noite; as plantas mais cuidadas reclamam na Primavera grandes toldos de palha, que abriguem das geadas as tenras folhas dos rebentos. Durante o primeiro ano, dispensam adubos, que depois se aplicam em períodos frequentes. A guerra aos vermes, aos insectos, exige zelos incessantes. No fim de 4 anos, já o arbusto se presta à primeira colheita; mas são as velhas plantas, de cem anos, as que melhor produzem.
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terça-feira, 22 de abril de 2008
Wenceslau de Moraes - O Culto do Chá
Parte 4
O Japão é a terra das camélias: camelia japonica, lá diz o latinório dos botânicos.
Quando, por fins de Novembro, começam os frios e as geadas e pouco tarda que as neves alvejem os dorsos das montanhas, quando cessam as últimas florescências dos jardins, é então que começam ostentando-se as belas flores desta esplêndida família das camélias. Vêm primeiro as sazancas, umas brancas, outras róseas, de mimosíssimas pétalas frisadas; seguem-se as camélias simples, sanguíneas, surdindo da rama espessa de árvores gigantes, espalhadas pelos campos; e após vêm as flores cuidadas, de luxo, variando em inúmeras formas, variando em inúmeros tons, desde o branco
de leite até ao róseo quase negro. Então igualmente desabrochaa pequenina flor do chá, que também é uma camélia, subtilmente perfumada, composta de cinco petalazinhas alvas contornando e protegendo o feixe áureo dos estames.
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domingo, 6 de abril de 2008
Wesceslau de Moraes - O Culto do Chá
Parte 3
Da China, veio o chá para as terras deNippon, mas não se sabe quando.
Velhas crónicas mencionam (no dizer dos entendidos neste caso melindroso) que, em 729 da era cristã, durante uma festa religiosa de espavento, o imperador Shomu oferecia chá a bonzos de alta jerarquia; mas fica-se ignorando se já antes seria conhecido... Parece que um bom abade budista, Dengyo Daishi, foi o primeiro que obteve a planta em solo japonês, em 805; o chá era então já uma beberagem favorita entre os bonzos chineses, que dela se serviam durante as vigílias prolongadas das suas práticas nocturnas. Mais recentemente, ainda outro bonzo, Eisei, tendo ido à China, de lá voltou, trazendo as sementes preciosas, e no monte Sefuri, em Chikuzen, cuidou da sua sementeira. Pouco depois, ainda mais outro bonzo (sempre os bonzos!) de nome Mioyé, colhendo de Eisei os vários segredos de cultura, novas sementes adquiriu, e em Toga-no-o e em Uji, lugares vizinhos de Quioto, atentamente se entreteve em cultivar o chá; em Uji, de preferência, foram os resultados excelentes. Dois séculos depois, cerca de 1400, o shogun (generalíssimo) Ashikawa Yoshimitsu imprimiu vigoroso impulso às plantações de Uji, as quais tanto foram prosperando, mercê da riqueza do torrão, que de então até hoje o chá daquele sítio tem sido celebrado como o melhor de todo o Império; dele exclusivamente se serve o imperador.
retirado de O Culto do Chá
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quinta-feira, 27 de março de 2008
Wesceslau de Moraes - O Culto do Chá
Parte 2
Oh, fé dos velhos tempos!... Oh, santos patriarcas de tão vários países e tão diferentes seitas, tenazes campeões, que fostes incutindo nos simples a crença, a esperança, o amor - bálsamos consoladores das duras misérias deste mundo -, como vos amo, a todos!...
Meus piedosos pensamentos elevam-se neste momento a Darumá. Segundo a tradição da gente japonesa, Darumá, o grande apóstolo indiano do budismo, veio à China aí pelo começo do século VI da nossa era cristã, e em terras chinesas pregou em honra da verdade, iluminando o espírito dos povos.
Consta que, por voluntária desistência das efémeras alegrias terreais, Darumá votou-se a passar a vida de joelhos sobre o solo pedregoso, absorto em contemplações místicas, sem mesmo permitir-se o simples regalo de dormir. Tantos anos permaneceu de tal maneira, que as pernas se lhe gastaram, claro está; e é assim, sem pernas, só com a cabeça e com o tronco, envolto num manto carmesim, que ainda hoje é figurado. A imagem tornou-se querida e popular entre esta boa gente japonesa; é mesmo um brinquedo corriqueiro entre as mãozitas das crianças - os santos e os meninos vivem sempre em boa companhia -; lembrando o tal brinquedo o nosso frade de sabugo, pela teima em voltar, por mais voltas que se lhe dêem, à sua postura habitual. Deve ainda saber-se que Darumá tem dado assunto, desde remotos tempos até hoje, a pintores da mais alta valia; Hokusai foi um deles, pintando o famoso Darumá sobre uma folha de papel de cerca de duzentos metros quadrados de grandeza, empregando oitenta litros de tinta no desenho e servindo-se de cinco vassouras à laia de pincéis; estendida a tela sobre o campo, no telhado de um templo a turba admirava a obra e aplaudia o mestre.
Mas voltemos ao que mais nos interessa, respeitante ao venerando culto que invoquei, ajoelhado sobre as pedras. Consta mais que, em certa noite, as pálpebras se lhe cerraram de fadiga, e o bom Darumá deixou-se adormecer, para só acordar pela manhã. Então, pedindo a alguém uma tesoura ou instrumento parecido, cortou a si próprio as pálpebras indignas e arremessou-as ao solo, num gesto de despeito... As pálpebras, por milagre, enraizaram, dando nascença a um gracioso arbusto nunca visto, que medrou mui de pronto e cujas folhas, tratadas de infusão pela água quente, foram um remédio precioso contra o sono o cansaço das vigílias. Estava conhecido o chá; tem pois na China a sua origem, e é coisa santa, como se acaba de provar. Crê que quer; mas devo advertir que este livro foi escrito para os crentes.
Retirado de O Culto do Chá
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27.3.08
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segunda-feira, 24 de março de 2008
Wenceslau de Moraes - O Culto do Chá
O Culto do Chá é uma das obras de Wenceslau de Moraes, mais uma que finalmente encontrei. Estava na secção de gastronomia.
Dada a dificuldade em encontrar a obra tentarei transcrever para o blog esse pequeno livro. Creio não serem de grande utilidade mais considerações sobre o escritor. O leitor atento encontrará melhor o valor do escritor na sua própria obra.
Parte 1
Fala-se do Japão; nem, francamente, devera presumir-se que eu ia referir-me a um país qualquer ocidental, onde a nossa raça branca floresce.
É no Oriente, e em especial no Extremo Oriente, que as coisas comuns da criação ou os usos e costumes triviais da vida são susceptíveis de merecer um tal requinte, que constituam um verdadeiro culto. No espírito do europeu, despoetizado pela chateza dos ideais da época, atribulado pelas multíplices exigências da vida, pervertido pela febre do negócio, não medram de há muito os cultos. Especializando a observação ao chá, havemos de convir que este artigo de comércio, que de tão longe nos vem, prepositadamente adulterado conforme o nosso gosto, no fim de contas se resume numa detestável infusão que entrou em moda no sport social, simples pretexto para repastos pelintras, para reuniões banais, para palestras vãs.
A Ásia é outra coisa: a muitos propósitos imersa ainda em barbarismo, se assim se quer dizer; com mil defeitos e mil erros, que a sábia Europa aponta a dedo e algumas vezes corrige, quando pode, com a lógica dos seus canhões de tiro rápido; o que ela retém ainda, indiscutivelmente, esta, Ásia é o carácter ancestral, nada vulgar, nada rasteiro, palpitante de orgulhos de raça, aprazendo-se em sonhos e quimeras, acariciando a lenda, divinizando as coisas, prodigalizando os cultos; o que é, em todo caso, uma maneira amável de ir compreendendo a vida.
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24.3.08
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quarta-feira, 15 de novembro de 2006
Volume XII?
No passado dia 10 mencionei um trabalho de Hokusai acerca de pescoços que se alongam e permitem ver acontecimentos distantes. É possível que seja esta a imagem que Moraes menciona, uma imagem que na minha opinião não é particularmente bela mas serve muito bem para o exemplo que se pretendia dar acerca das visões.
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15.11.06
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sábado, 11 de novembro de 2006
Moraes nas suas tarefas de oficial da armada
O escritor português de que tenho vindo a falar foi oficial da armada. É dele que sopram os ventos que têm empurrado os assuntos do blog. Uma pequena pesquisa permitiu recolher imagens dos navios onde este escritor serviu a marinha portuguesa. Limito-me a indicar os navios de que recolhi imagens e o ano em que entrou ao serviço nesses navios, para uma lista mais completa ver aqui. Nos links encontramos informação sobre os navios e sobre o oficial.
Corveta Bartolomeu Dias (1874)Fragata D. Fernando II e Glória (1875)
Corveta Sagres (1876)Corveta Mindelo (1878)
Corveta Duque de Palmela (1879)Canhoneira Rio Ave (1884)
Vapor Sena (1877)
Couraçado Vasco da Gama (1886)
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11.11.06
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sexta-feira, 10 de novembro de 2006
Mangwa de Hokusai
No texto "Sonhos" Wenceslau fala de uma Mangwa de Hokusai. Hokusai (1760 - 1849), um fecundíssimo e habilíssimo pintor, dá a imagem das pessoas cujo pescoço estica enquanto dormem, fenómeno que lhes confere a capacidade de ver acontecimentos distantes. Segundo Wenceslau a imagem encontrava-se no volume XII da sua obra, infelizmente não sei ao certo de que imagem se trata. Uma imagem conhecida de Hokusai será a seguinte, na qual vemos o monte Fuji.
Esta artísta tem influências ocidentais, o que se revela na noção de prespectiva do seu trabalho e o distingue no estilo oriental.
O trabalho é muito variado englobando mangas, livros de imagens, ilustrações de viagens, ilustrações eróticas, quadros e trabalhos em seda e madeira. (fonte)
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10.11.06
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quinta-feira, 9 de novembro de 2006
Túmulo de Atsumori
Taira no Atsumori foi um samurai no séc.XII, pertencia à família Taira, na época em guerra com a família Minamoto. Após uma batalha que a família Minamoto venceu, Naozane, um samurai que seguia essa família, viu um nobre Taira em fuga. Tendo em vista a recompensa perseguiu-o e enfrentou-o numa luta. O resultado dessa luta foi favorável para si e, antes de lhe retirar a cabeça, retirou-lhe o elmo. Tratava-se de um jovem de 16 anos, mais ou menos a mesma idade do seu filho que tinha perecido na batalha, algo que encheu o samurai de remorsos e refreou a vontade de receber a recompensa. No entanto, por pressão dos que o rodeavam, incluindo o jovem Atsumori, Naozane seguiu com o seu dever.
Incapaz de viver com o seu acto, Naozane recusou a recompensa e enviou a cabeça e os despojos ao pai do jovem, seguindo a sua vida como bonzo num mosteiro. No local onde decorreu o combate ficou o túmulo de Atsumori, aquele que vimos logo no início.
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9.11.06
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terça-feira, 7 de novembro de 2006
Bibliografia de Wenceslau de Moraes
A bibliografia de Wenceslau de Moraes, escritor que viveu de 24 de Maio de 1854 a 1 de Julho de 1929, no Japão a partir de 1889, uma altura de mudança no país.
1895 - Traços do Extremo Oriente
1897 - Dai-Nippon
1904 - Cartas do Japão (com várias séries e volumes publicados após esta data)
1905 - O culto do chá
1906 - Paisagens da China e do Japão
1907 - A vida japonesa
1916 - O Bon-Odori em Tokushima
1917 - Ko-Haru
1923 - Ó-Yoné e Ko-Haru
1924 - Relance da história do Japão
1926 - Os serões no Japão
1926 - Relance da alma japonesaComo podemos ver o oriente é o tema de toda a sua obra. Curiosamente encontramos uma publicação na Imprensa Nacional-Casa da Moeda que não consta nesta lista. Foram recentemente publicados:
FERNÃO MENDES PINTO NO JAPÃO
Ó-YONÉ E KO-HARU
e sobre o escritor
O ESSENCIAL SOBRE WENCESLAU DE MORAES
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7.11.06
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Wenceslau de Moraes
Wenceslau de Moraes foi um oficial da marinha na segunda metade do século XIX. O desfecho das suas viagens pelo mundo resultou na fixação no Japão, em Tokushima, para passar o resto dos seus dias. Durante esse período, que durou cerca de 25 anos, escreveu diversos livros, grande parte sobre o país onde se encontrava.
Por acaso encontrei-o Ó-Yoné e Ko-Haru perdido na livraria, comprei e descobri uma obra de honestidade extraordinária. Nela encontramos as marcas que o falecimento de duas mulheres, cujo nome deu origem ao título, deixaram em Moraes. Observamos a sua capacidade para se aperceber do que o envolve, como é o Japão visto por um homem já velho, com uma serenidade e sabedoria que impressionam. Enquanto lemos ficamos com a sensação que é um amigo que nos escreve, a leitura sobre as impressões do dia a dia envolvem-nos e levam-nos a conviver com o escritor. Poucas vezes encontrei alguém que através da escrita conseguisse aproximar-se tanto de nós. Uma leitura que recomendo.
Fotos de Wenceslau de Moraes:
Em 2004 decorreram as celebrações dos 150 anos deste escritor. Descobri uma notícia que indica que nesse ano foi construída em Tokushima uma estátua para o homenagear. Em vida os japoneses sempre rejeitaram este estrangeiro, na morte talvez o lembrem mais que os portugueses. Afinal, a estátua encontra-se junto a um museu de Tokushima, o museu Wenceslau de Moraes.
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7.11.06
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Ko-Haru
Ko-Haru, pequena primavera, Verão de São Martinho em português, nome disponível para o blog. Nos momentos de escolha não vale a pena pensar muito, Ko-Haru aparece no título do livro que leio no momento, verão de são martinho é agora, o conjunto de influências levou a este blog. É um blog pessoal, não tem tema, tem uma pessoa, eu, a escrever sobre os assuntos de interesse no momento.
Pronto, agora já posso configurar melhor o tema do blog.
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