"A única coisa pior do que falarem de nós, é não o fazerem."
(Wylde)
Não se falou muito do Infante D.Henrique nos últimos tempos. ninguém se lembrou, pelo menos até ontem, de o chamar fundamentalista religioso, terrorista cristão, pai das desgraças da globalização. Não, dele apenas se disse o banal, teve um documentário bem humorado, mas isso não chega. Sem polémica não há necessidade de defesa do infante, sem polémica não se fala do infante. Já toda a gente sabe que ele é um grande português, eu até achava que era o maior, mas não teve sorte. Já não tem amigos nem inimigos, e já se sabe, a única coisa pior do que falarem de nós, é não o fazerem.
Outras figuras têm mais sorte. Ou menos estabelecidas como figuras, ou com amigos e inimigos ainda vivos. Deles há muito para dizer, discutir, para levar demasiado a sério. Até nos Grandes Portugueses se conseguiram arranjar os três grandes, quem sabe até um sistema! Desses podemos confirmar que a única coisa pior do que falarem de nós é não o fazerem. Tivessem os ruidosos estado calados e podiam evitar o que desejavam evitar (e eu podia ter evitado ouvi-los!, o que seria ainda melhor). Mas não, gente sem tacto nem trato, inventaram logo um sistema para ter o resultado contrário ao que pretendiam.
Por fim, posso dizer que a única coisa pior que falarem dele, é não o fazerem. Afinal, que sei eu de Salazar? Muito pouco e com pouca fiabilidade. Daí que convenha falar dele, tal como eu muitos outros desconhecem Salazar. Na verdade, quase ninguém o deve conhecer já que o que se sabe é profundamente propagandístico. Até o Diabo deve ter as suas virtudes, só não teve oportunidade de ter algum apoiante a escrever na bíblia.
Infelizmente não é possível falar de Salazar. A geração anterior à minha, a tal geração que fracassou, vive da propaganda - seja ela para o lado da luz ou da escuridão... ficarei pouco melhor em termos de conhecimento depois do que se disse sobre ele no programa de televisão.
Hoje pude ver este artigo (poderia chamar-se as grilhetas da liberdade). Ontem pude ver como o princípio democrático do voto é bem aceite... desde que vá no sentido que desejamos. Talvez devessem falar mais de Salazar, para saber o que de facto se passou. Pelo menos ninguém pode acusar Salazar de inventar contratos de trabalho de 3 meses (no futuro isso também deverá ser motivo de debate...).
Quando não se fala o suficiente da realidade e se vive de propaganda corre-se o risco de repetir erros e de fracassar nas intensões. Parece que, em muitos sentidos, pior do que falarem dele, é não o fazerem.
PS: confesso-me indignado, mas com um finalista que ficou em terceiro por salvar uns poucos de judeus. Os portugueses são maiores do que isso...
segunda-feira, 26 de março de 2007
Pela boca morre o peixe
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26.3.07
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quarta-feira, 21 de março de 2007
segunda-feira, 19 de março de 2007
Capítulo XVIII, Séc. XXI
Maquiavel deu ao capítulo XVIII de "O Príncipe" o título "Guardemos-nos de ser odiados e desprezados" (de contemptu et odio fugiendo). Nele encontraremos esta passagem bastante actual:
O reino da França é dos mais bem ordenados e governados de que se tem conhecimento no nosso tempo. Nele se encontram inúmeras e boas instituições, das quais dependem a liberdade e a segurança do rei. A primeira é o parlamento e a sua autoridade, pois aquele que estabeleceu a forma de governo deste reino, conhecedor da ambição e da presunção dos mais importantes e achando que precisavam de qualquer espécie de freio para os sofrear, e conhecendo também o ódio, baseado no medo, que a maiora tem pelos grandes, e desejando tranquillizá-la, achouque convinha poupar ao rei o rancor que inspiraria aos grandes senhores, ao aliviar o fardo da arraia miúda, ou esta, ao favorecer os gentis homens. Por isso constituiu um terceiro juiz, que, sem que o rei crie inimigos, castiga os grandes e favorece os pequenos. Esta instituição não poderia ser melhor, nem mais sensata, nem proporcionar maior segurança ao rei e ao reino. Daqui se pode tirar uma boa advertência: os príncipes devem confiar a outros os papéis que concitam rancores e tomar para si os que atraem o reconhecimento. Repito, outra vez ainda, que o príncipe deve prestar atenção aos mais importantes, mas sem se fazer diar pelo povo.
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razio
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19.3.07
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terça-feira, 13 de março de 2007
Moi Dix Mois - Solitude [Live]
Os Moi Dix Mois são um projecto do guitarrista, Mana, e parece que gosto cada vez mais da música deles. Além disso a banda parece funcionar bem em palco, é espetacular.
Página oficial (onde se podem encontrar informação sobre o albúm que sairá brevemente):
http://www.midi-nette.com/mdm/
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razio
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13.3.07
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quinta-feira, 8 de março de 2007
segunda-feira, 5 de março de 2007
quinta-feira, 1 de março de 2007
sábado, 17 de fevereiro de 2007
Portugal vs Rocky
Acabou de sair um filme do Rocky, e é um filme bastante interessante. Uma das cenas do filme é particularmente adequada para os portugueses, e vem precisamente de um personagem que não é dos mais inteligentes que já foram criados.
O Rocky nessa cena está a dar um sermão ao filho, filho que dizia que a fama do pai o punha na sombra, que culpava um pouco o pai pelas suas dificuldades de integração. O pai apenas lhe fez mostrar que a vida é dura para todos e que ele está a arranjar desculpas para as fraquezas que tem.
O Ballboa filho fez-me lembrar Portugal. O programa Grandes Portugueses mostrou o quanto uma certa parte da população tem dificuldade em justificar o seu próprio fracasso e culpa o Estado Novo por tudo. Já tinha visto esse fenómeno no livro "Portugal: o medo de existir", parece que foi Salazar que inventou Portugal, que antes não existia nada. Ou pior, dá a ideia de que Portugal era um espaço fantástico e que as agruras da ditadura é que estragaram tudo. Antes tínhamos um ensino muito à frente do alemão, uma cultura que ultrapassava a francesa num piscar de olhos, um império que fazia inveja aos ingleses. O Estado Novo é que nos veio atrasar, nós antes éramos a inveja de todo o mundo, e se agora não somos outra vez os maiores é porque o Salazar nos mutilou e não somos capazes de fazer nada.
Responsabilizar um pequeno espaço da nossa história por tudo o que é mau é digno de cobardes fracos, que é o que uma boa quota de portugueses é - e não foi invenção de Salazar. Felizmente parece que já há muitas pessoas capazes de ver para além da demonização de figuras.
Mas agora já não é preciso fazer mais as pazes com a história, vão lá votar no Infante D. Henrique.
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razio
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17.2.07
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Comunidade dos jogos de vídeo - o caso da Imprensa *
A comunidade existente
Tal como foi mencionado anteriormente a comunidade tem um papel fundamental na determinação do que é arte ou não. Ao concluir apresentei o facto de a comunidade existente ser fechada e não conseguir, ou tentar, comunicar com o exterior. Não contribui para que os jogos de vídeo façam parte da cultura geral, no entanto não deixam de ter efeitos dentro da sua comunidade fechada.
São elementos da comunidade:
• os jogadores, que podemos distinguir em:
ocasionais / casuais ;
“hardcore”, sendo estes últimos em menor número mas grandes consumidores e que se mantêm bastante bem informados;
• a imprensa;
• as produtoras de videojogos.
Cada elemento tem um papel ligeiramente diferente, descrito nos passos seguintes.
O papel que a comunidade – a imprensa
Há um grande número de publicações que testa os jogos e os avalia, geralmente atribuindo-lhes uma nota, tal como um professor que corrige os trabalhos dos alunos.
Este tipo de teste geralmente assenta fundamentalmente na parte técnica: gráficos, som, jogabilidade. Uma nota ao jogo na sua globalidade, enquanto conjunto e interacção dos vários elementos, nem sempre é atribuída, ou é-o muitas vezes na forma de média de cada um dos valores dados aos elementos tradicionais. A análise é fundamentalmente técnica e assenta bastante na comparação com o que é a referência no momento. De facto raras são as publicações que valorizam a componente artística, ou a inovação (muitas vezes confundida com a novidade, que se resume a colocar pequenas coisas novas nos jogos, melhorias de gráficos ou acréscimo de um ou outro extra). O facto de se comparar com a referência no momento leva a um enviesamento das avaliações para o padrão, penalizando quem não partilha a mesma “onda”. Ainda podemos considerar um elemento como a dificuldade que, de forma uma pouco inexplicável, não é raro penalizar a nota do jogo caso seja elevada. A respeito da dificuldade há pouco consenso entre os jogadores, podemos considerar no entanto que, regra geral, quem prefere jogos mais difíceis está no grupo dos jogadores “hardcore” (o termo pode ser usado para se referir exactamente ao jogador que prefere um desafio maior, será essa a definição que encontram na wikipedia).
Além do enviesamento há ainda questões do jogo que são menosprezadas, como por exemplo a história, caso exista, a qualidade dos textos e diálogos e construção de personagens. Podemos incluir neste grupo a inteligência artificial, que não é particularmente valorizada desde cumpra os mínimos (pode ser penalizadora, se elevar a dificuldade do jogo vai ter efeito na categoria da dificuldade). A inovação no sentido de alteração do aspecto (novas formas de expressão visual e sonora), jogabilidade ou conceito de jogo para algo fora do que está na norma não só é geralmente menosprezada pode ser penalizada pela generalidade das publicações.
O facto de se fazer uma análise tratando como igual todo o género de jogo (RPG avaliado por critérios semelhantes aos de um FPS, por exemplo) também em nada contribui para o rigor e qualidade das avaliações.
A minha consideração sobre a imprensa especializada é que geralmente é fraca e tem critérios de avaliação mal definidos. Como os jogos não são levados muito a sério e têm uma grande parte do público em camadas mais jovens, grande parte das publicações tem um nível baixo de qualidade. Um fenómeno estranho é que grande parte das publicações atribui notas altas a quase todos os jogos, colidindo com a ideia de alguns de que os jogos estão a atravessar uma crise. Outro factor que penaliza estes testes é o facto de este tipo de imprensa ser relativamente recente, não estando ainda consolidados métodos de avaliação (em parte porque não se faz um estudo rigoroso do que é um jogo de vídeo). No panorama internacional há algumas publicações de referência (Famitsu, Edge), não são no entanto as mais vendidas e que atingem mais jogadores, principalmente ocasionais. Muitas vezes fala-se da nota atribuída por estas revistas para dar credibilidade ao jogo.
Sobre as notas dos testes, podemos considerá-las funcionais mas não fundamentais. São tantos os problemas e limitações no teste de um produto complexo como um jogo que uma avaliação apenas em texto poderá ser suficiente (e até mais exigente, tanto ao jogo como a quem elabora o teste).
Os testes elaborados vão interferir com os restantes elementos da comunidade e afectam o rumo que é dado à evolução dos jogos de vídeo. Primeiro porque o seu tipo de avaliação vai passar a ser o tipo de avaliação que muitos consumidores vão fazer, o que leva a uma sobrevalorização de uns aspectos em detrimento de outros. Depois porque quem produz jogos se vai preocupar em satisfazer a imprensa e receber avaliações positivas, dando particular importância aos elementos que vão ser avaliados.
Dado o conservadorismo, essencialmente técnica e pouco ligada à parte artística, da imprensa e a sua importância nos restantes elementos da comunidade podemos desde já concluir que os jogos se desenrolam num ambiente avesso à inovação* e favorável à novidade*, ou seja, o desenvolvimento pleno dos jogos enquanto forma de arte, que requereria liberdade e criatividade, sofre a castração da comunidade “liderada” pela imprensa, que deseja um desenvolvimento na linha do que está habituada. Cria-se um paradigma e, tal como na ciência, quem está dentro dele vai resistir às eventuais agressões dos novos conceitos de jogo.
Um desenvolvimento intelectual da imprensa que estimule a inovação é desejável e fundamental para divulgar essas novas ideias. Tal como na ciência, se os defensores de novas teorias não conseguirem comunicar com a restante comunidade verão o seu esforço e trabalho resultar em nada. Também aí o papel das publicações é fundamental na difusão de novos conceitos (teorias). No caso da imprensa especializada nos jogos de vídeo há uma certa inconsciência do seu papel.
Para que não fique a impressão de que só há aspectos negativos do processo actual convém apresentar os pontos positivos. Um deles é que o paradigma tem o mérito de criar uma linguagem, quem está dentro do universo dos jogos já tem um conjunto de conceitos e capacidades que decorrem da sua envolvência com os vários jogos e comentários a jogos. Esta linguagem não tem de ser abandonada, a meu ver tem de ser expandida. A avaliação técnica não deve ser abandonada, apenas se lhe deve retirar alguma importância.
*Nota:
Nos termos que uso, a inovação remeto-a para a parte artística enquanto que a novidade é remetida para a parte técnica. Entre elas distingue-se ainda que a novidade é fungível ao passo que a inovação é durável.
A novidade, longe de ser inútil, possibilita mais inovação através de um alargar das restrições técnicas.
* retirado de estigma2005
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razio
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17.2.07
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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007
Jogos de Vídeo - arte? *
Uma das questões que se pode pôr actualmente é se o jogos de vídeo são arte. Para muitos são não passam de uma actividade para jovens, com pouca substância e com grandes doses de violência. A maior parte das pessoas nunca jogou um jogo de vídeo, é para esses um produto estranho em relação ao qual devem manter distância.
Apesar de esse equívoco geral, quem está dentro do universo dos jogos deve interrogar-se - os jogos de vídeo são arte?
A minha resposta será - sim, são arte. Resultam de uma combinação de imagem, som, jogabilidade, têm histórias e mensagens que é preciso intrepretar. Deste ponto de vista o jogo é arte simplesmente porque resulta de uma combinação de artes.
Alguns jogadores dão uma resposta ligeiramente diferente, preferem dizer que alguns jogos são arte e outros não. Os motivos e critérios são-me estranhos, há nesses casos uma grande subjectividade sobre se um dado jogo é arte ou não. Penso que nestes casos o problema se resume de uma forma mais simples: há arte boa e arte má. A ideia que tentam transmitir quando dizem que "não é arte" é que não presta, é fraco, em resumo, é má arte. A minha óptica é mais simples e, apesar de não isenta de problemas, é um raciocínio bastante básico considerar que os jogos são arte porque resultam de uma combinação de artes.
Aquilo que mostrei até agora resume-se à arte numa prespectiva subjectiva, a minha opinião e a opinião dos outros. Pode existir um critério de demarcação de arte e não arte. Eu não sei explicar o que é arte, apenas sei dizer que um objecto é arte ou não. Talvez pelo cheiro ou outra qualquer propriedade mística, o que em geral sabemos fazer é definir algo como arte de uma forma intuitiva.
Esta questão assemelha-se a uma outra, também muito debatida, que diz respeito a "o que é ciência". Já antes falei em critério de demarcação, vocabulário que não será estranho a quem já conhece o caso da ciência.
Conseguimos nós dar um critério de demarcação para distinguir arte de não-arte?
Mais ou menos...
Tal como alguém sugeriu no caso da ciência, a arte não é uma construção individual. Há todo um meio envolvente, uma comunidade, eles dizem o que é arte e o que não é. Têm Um Critério? Na maior parte dos casos não, é mais uma questão de quem é mais convincente a persuadir o outro da sua opinião.
Esta dinâmica de discussão e debate para a comunidade determinar por si o que é arte ou não é arte pressupõe que existe uma comunidade, que tem uma voz comum representativa dessa arte (neste caso, os jogos de vídeo) e que é suficientemente forte para comunicar com as outras comunidades e indivíduos. A arte é definida como construção social e não com um critério "simples" e objectivo. A comunidade tem de comunicar entre si através de encontros e publicações especializadas (já existentes) e comunica "para fora" através do meios mais ou menos tradicionais de comunicação que existem (é neste campo , que levaria a um maior reconhecimento dos jogos, que ainda há muito por fazer). O ideal é que os jogos se enquadrem naquilo que podemos chamar "cultura geral", os conhecimentos simples e superficiais, conhecidos por todos, de assuntos mais vastos e complexos. Esse é um passo fundamental para que os jogos entrem para a categoria de arte e deixem de ser uma mera proeza de engenharia.
Conclusão
A partir do que disse podemos concluir que o jogos não são arte. Pode existir uma minoria de pessoas, como eu, que já estão a tentar divulgar o jogos de vídeo como produto artístico e capaz de ser uma expressão cultural de uma comunidade. No entanto isso não é suficiente, para que seja arte é necessário que seja aceite pela generalidade como tal. Não se trata de uma questão de mérito e capacidade, é antes uma questão de notoriedade e poder. Os jogos serão arte quando tiverem força suficiente para se afirmar como tal.
* retirado do estigma2005
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terça-feira, 13 de fevereiro de 2007
Uma frase verdadeiramente memorável
Coisa notável, demonstrada pela observação: o amor grandioso é tanto mais profundo e tanto mais voraz quanto ais pequeno local de onde se escreve! Nada que se compare em majestade aos rasgos de pena de Ovar, de Espinho ou de Estarreja se nos conta que ali chegou o polícia 34 para fiscalizar a decência da praia, que choveu na véspera, ou que por delibareção camarária se está pintando o candeeiro da Rua Nova, em frente da caixo do correio!
Decididamente - e é trist ponderá-lo - a literatura é tanto mais pomposa quanto mais provincial.
De uma pequena praia de banhos escrevem ainda hoje uma das folhas da manhã:
"Esta ténue fímbia de areia osculada pelo Atlântico está sobrepujando e fazendo rosto em competimentos de garradice às praias de maior tomo. Grande é o número de cavalheiros que ora veraneiam nesta estância balnear."
E um outro escreve acerca da morte de uma jovem senhora da sua localidade:
"Dramas cruelíssimos da vida real! Reclama a tousa do sepulcro as heras e os goivos que têm de cobrir aquela que a morte arrebata no vicejar dos anos e em que florescem as singelas virtudes que no lar remansoso dulcificama travor acerbíssimo da existência!"
No jornalismo da capital dizem-se as coisas terra a terra, muito mais simplesmente. Assim, no dia em que parti de Lisboa, um necrologista resumia todo o elogio do seu morto na seguinte frase verdadeiramente memorável:
"Nele corriam todas as virtudes cívicas e domésticas e vice-versa!"
(Em "As Farpas" de Ramalho Ortigão)
Realmente, uma frase memorável.
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sábado, 10 de fevereiro de 2007
Aborto e o comunismo de quando existia comunismo
O Abrupto.blogspot.com apresenta o que seria uma provável opinião de Cunhal sobre o aborto. Depois de escrever a "A cor do ar" ler estes textos foi uma coincidência surpreendente. O texto está divido em duas partes:
Parte 1
Parte 2
É estranho mas consigo concordar com uma grande parte desses textos. Apesar de alguns excessos normais na propaganda há um fundo de verdade no que foi escrito.
Votaria Cunhal no Sim ou no Não?
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quarta-feira, 10 de janeiro de 2007
* Crónicas da Geração Racional - O caso João
O menino João é um homem racional. As suas primeiras palavras, que deixaram os pais em delírio, foram: "isto é o máximo!".
Aos 5 o João analizou a sua situação de forma racional e concluiu que a sua existência já não se encontrava no máximo, isto porque a sua mãe lhe provocava uma certa desutilidade devido a uma certa depressão. Apresentou a sua análise ao pai, um homem altruísta, e sugeriu-lhe que devia matar a mulher, pois o "cash flow" esperado proveniente do seguro de vida tinha uma utilidade superior à desutilidade do desaparecimento da sua mãe. Altruísta como sempre, o pai mostrou preocupação com os cuidados que não poderia dar ao filho enquanto estivesse preso, mas foi imediatamente tranquilizado pelo João. O João recorreria ao "outsorcing" de pais, bastaria um pai ou uma mãe pois cada novo progenitor traz um acréscimo de utilidade decrescente e, feitas as contas, não valia a pena pagar dois salários. Mostrou ainda outro benefício do novo progenitor, ele definiria como requesito que o tratassem por "Jó" em vez de João, ganhando assim tempo sempre que o interpelavam. Sempre leva menos tempo dizer "Jó, vem jantar" do que "João, vem jantar". O pai estava convencido com estas grandiosas vantagens para o seu filho.
O pai, altruísta como não podia deixar de ser, executou o plano e, evidentemente, tudo correu como o "Jó" planeou.
Aos 30 "Jó", consciente de que se tivesse filho não poderia continuar a ser um homem racional e passaria a um estado do altruísmo compulsivo, optou por não ter filhos. O mesmo sucedeu com a sua geração, já ninguém queria ter filhos. Até porque era muito mais rendível trabalhar como fornecedor de cuidados parentais.E assim foi a história da última geração da humanidade, geração que já evoluiu até ao estado de "homo economicus" e que, de forma completamente racional e baseada no facto de a utilidade de ter filhos não compensar a desutilidade de passar a um estado de altruísmo, optou pela extinção.
* Este texto já tinha sido publicado noutro blog, no entanto devido ao abandono desse blog e à minha intenção de continuar a escrever estas crónicas decidi passar a primeira para aqui, desta vez com menos erros e calinadas várias.
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terça-feira, 9 de janeiro de 2007
Já não me recordo quem sugeriu esta imagem para o que se passa actualmente em relação aos jovens. Este é um quadro que revela bem o espírito que chegou a faltar no programa Prós e Contras de ontem, cujo tema eram os jovens actuais.
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segunda-feira, 25 de dezembro de 2006
Natal, uma falta de bom senso
Imagine uma mulher de 19 ou 20 anos, oriunda de uma família pobre e que se vê a braços com uma gravidez indesejada. Essa jovem é casada, mas o marido não só é pobre, um mísero carpinteiro, como também não é pai do filho que a mulher carrega, facto que lhe provoca algum transtorno. Vamos chamar-lhes Maria e José, nomes fictícios.
Para uma situação destas que dita o nosso refinamento de civilização superior? Ora vejamos:
- família pobre, não garante o sustendo da criança nem lhe garante um futuro promissor;
- gravidez indesejada numa rapariga praticamente adolescente e casada com um homem que não é pai da criança, elemento que não garante condições harmoniosas para o crescimento da criança.
É bastante óbvio que o filho destes dois, mais de um que de outro, não tem futuro e será um caso perdido. O mais provável é tornar-se um delinquente, um criminoso, acabará os seus dias metido em problemas com a lei, será julgado e condenado.
Neste caso uma insistência por parte de Maria e José, nomes fictícios, em levar a gravidez até ao fim seria uma grande inconsiência, reveladora de um sentimento egoísta em relação à criança que vem ao mundo apenas para sofrer. É um daqueles casos evidentes em que o aborto é a melhor solução.
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razio
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25.12.06
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segunda-feira, 18 de dezembro de 2006
Andar em círculos
Nas considerações sobre os EUA do Planisfério Pessoal surge o assunto das várias mudanças de casa, cidade, estado, que um americano faz ao longo da sua vida. Simultaneamente o cenário americano é caracterizado pela igualdade, o espaço parece homogénio, muda-se de cidade e não se nota a diferença. Cidades iguais, com as mesmas lojas, os mesmo restaurantes, os mesmo cafés, até as mesmas casas. Segundo o texto 75% das vivendas americanas segue o mesmo modelo, um americano pode mudar de casa e passar para outra exactamente igual - só tem de se adaptar ao novo número da porta.
Num país onde se fala a mesma língua e onde tudo é idêntico as viagens e mudanças de casa são uma caricatura, Mudamos de sítio e sem que grande coisa se altere. Como a descrição da américa também não é muito favorável no que toca às relações humanas, a viagem torna-se ainda mais fácil, até os amigos parecem padronizados.
You can paint it any color, so long as it's black ainda é o melhor lema sobre a liberdade de escolha no capitalismo mais aguerrido.
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razio
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18.12.06
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Sobre o Planisfério Pessoal
Ao fim de alguma espera lá chegou o meu livro, o Planisfério Pessoal. É de leitura rápida, em pouco tempo li um terço do livro, e na maior parte do tempo relata impressões e considerações sobre as pessoas que vão encontrando o jornalista ao longo o caminho. Ainda não passei do continente americano e tudo o que li só reforçou as minhas intenções de manter uma distância segura em relação a esses territórios, um oceano de distância será suficiente.
Nas minhas leituras recentes entretive-me com Wenceslau de Moraes e, quando me dá para meter as mãos nas Farpas, Ramalho Ortigão. Gonçalo Cadilhe ainda não é adversário à altura dessas velhas raposas - a idade cansa a vista e melhora a visão.
Além destas inevitáveis comparações entre quem tem alguma semelhança no assunto sobre o qual escreve, adianto que tal como n'As Farpas o Planisfério Pessoal não transmite a sensação de livro, não está articulado para isso e a inclusão de algumas caixas com uns "à partes" que não podiam desaparecer não ajuda - faz transparecer que se trata de uma compilação, o que de facto é.
Com alguns defeitos o livro parece ser bem sucedido na sua intenção de contar as histórias da história de uma volta ao mundo sem usar o transporte aério. A sua actualidade e apresentação daquilo que não costumamos saber sobre vários países tornam o livro útil e interessante. Muitas vezes o autor tenta transmitir os seus sentimentos enquanto viajante, não é bem sucedido e esse fracasso dá um ar de vulgaridade. Felizmente algumas entrevistas ao escritor facilitaram a exposição desses sentimentos que se revelam bastante interessantes e poderiam enriquecer o texto se tivessem sido representados com outras combinações de letras.Um bom livro de viagem, original e pessoal. Dentro do género o escritor parece promissor.
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18.12.06
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quinta-feira, 7 de dezembro de 2006
Hoje o blog Abrupto apresenta uma foto de Viseu. Reconheci imediatamente o local, por acaso fica na rua de uma das entradas da Livraria da Praça e o fotógrafo deve estar quase à porta da livraria.
Planeio apresentar algumas fotografias da cidade, é uma questão de conseguir uma máquina emprestada.
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razio
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7.12.06
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quarta-feira, 6 de dezembro de 2006
A cal e os homens
Entre considerações sobre o desenvolvimento económico e social do país no tomo I d'As Farpas, com o cenário pessimista que sempre fazem os desta poderosa escola a que Ramalho Ortigão diz pertencer (a dos bota-abaixo), encontramos um comentário curioso sobre a cal e a limpeza dos homens.
Por nenhum dinheiro no mundo um alentejano, um estremenho ou um algarvio entraria nu em uma latrina como fazem os minhotos para o negócio do estrume. Basta comparar as habitações alentejanas, esmeradamente asseadas, com os chiqueiros das famílias pobres do Minho.
- É porque no Minho não há cal.
- Mandem-na vir!
- É o que eles fazem; mas como a cal não está no solo o asseio não está nos costumes. Olhe Afife, como é uma povoação asseada! Porquê? Porque os de Afife são todos estucadores: é a especialidade da profissão que os familiriariza com a cal. Onde a casa é negra o homem é sujo.
- O senhor cuida então que o que falta no Minho é cal? Pois eu entendo que o que lá falta é gente. A população do minho é uma população de refugo. A emigração é um agente selectivo exercendo-se no sentido de operar a decadência. O minhoto mais forte, mais robusto e mais inteligente vai para o Brasil...
- Enriquecer!
- Sim; enriquecer o Brasil com a sua inteligência e com o seu trabalho, e empobrecer a sua terra pela ausência da sua capacidade e da sua força no conflito da civilização local.
(...)
Aqui encontramos duas questões pertinentes, uma da relação da cal com o asseio, que é muito sugestiva para os níveis da limpeza em grande parte do mundo - apesar de remotamente válida. A outra diz respeito ao efeito da emigração e ao engano que é acreditar que o dinheiro de algibeira proveniente dos emigrantes traz desenvolvimento às regiões. As minhas recentes impressões sobre o Minho são a da continuidade da pobreza relativa, noutro patamar é claro. Quando as regiões se esvaem em gente só podem contar com a falta de vigor para toda a acção, não há arremesso de dinheiro que traga desenvolvimento. Acrescente-se que este mal não é característico do Minho, é um mal das nossas províncias nos diferentes pontos do espaço e do tempo.
Para quê ler os jornais se As Fartas nos fornecem informação ainda mais actual?
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razio
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6.12.06
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segunda-feira, 4 de dezembro de 2006
Puro Sangue Lusitano
As raças cavalares do norte da Europa foram criadas para o desporto e a competição. São artificiais. O ibérico é um cavalo é um cavalo com história única: é o mais completo, o mais polivalente, o mais belo, o mais corajoso, o mais nobre.
(Laetitia Boulin-Néel em entrevista na revista NS de 28/9/2006)Esta é uma raça antiga, com idade estimada de 5000 anos, com a antiguidade a ser uma vantagem pelo constante aperfeiçoamento do animal. Figurando entre os mais antigos cavalos de sela, destacou-se ao longo do tempo, os cavalos ibéricos foram temidos por gregos e adoptados por romanos, fazendo da península um local de produção de cavalos para o império. Posteriores invasões mouras acabaram por ter um impacto indeterminado nas raças ibéricas já que é difícil determinar se foram trazidos cavalos do norte de África ou, pelo contrário, foram levados cavalos para África inflenciando as raças berberes.
O resultado é um animal polivalente com vastas capacidades físicas e emocionais. Isto pode ser constatado nas touradas, a actividade que garantiu a sobrevivência desta espécie, onde o desempenho do puro sangue lusitano é excepcional tanto a nível da coragem e frieza com que enfrenta o touro como na elegância, resistência e aceleração que são fundamentais para um bom toureio.
Um entendimento fácil com o cavaleiro e o seu espírito dócil fazem com que este cavalo seja adequado para actividades que vão para além do toureio, servindo como cavalo de trabalho, passeio ou para prática de outros desportos. Esta polivalência tem o seu simétrico na relativa raridade da raça, como se pode ver nas estatísticas indicadas abaixo. Após o 25 de Abril ocorreram problemas na manutenção das quintas onde o cavalo era produzido devido às nacionalizações. Uma lista de studs tem tido um contributo importante na manutenção da espécie, sempre com a preocupação de manter as suas qualidades e evitar os problemas de consanguinidade. Existem actualmente alguns puro sangue lusitano espalhados pelo mundo e a espécie parece ter encontrado um rumo novamente e desse modo garante o seu aperfeiçoamento e subsistência.
A sofisticação da escola de portuguesa condiz com a do puro sangue lusitano, com belos resutados a decorrer do entendimento e competência de cavalo e cavaleiro.
História do cavalo lusitano
Dados sobre o cavalo lusitano (e puro sangue árabe, outra espécie interessante)
Estatísticas
Associação de Criadores de Puro Sangue Lusitano
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razio
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4.12.06
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